O que é a videolaparoscopia
É uma cirurgia feita por dentro do abdome, sem o corte largo da cirurgia aberta. O cirurgião faz de três a quatro incisões de meio a um centímetro, introduz uma câmera de alta definição e instrumentos finos, e opera olhando para um monitor ampliado.
O abdome é preenchido com gás carbônico para criar espaço de trabalho e permitir a visualização dos órgãos. Todo o procedimento acontece sob anestesia geral.
Em 90 segundos: o que acontece dentro do abdome durante a cirurgia e por que as incisões são tão pequenas.
Quando é indicada
A videolaparoscopia serve tanto para investigar quanto para tratar. As indicações mais frequentes na nossa prática:
Endometriose
Principalmente a forma profunda, com acometimento de intestino, bexiga ou ureter.
Miomas uterinos
Miomectomia quando há indicação de retirada preservando o útero.
Cistos e tumores de ovário
Retirada do cisto preservando o ovário sempre que possível.
Histerectomia
Retirada do útero por doença benigna, com recuperação mais rápida.
Gravidez ectópica
Tratamento de urgência preservando a tuba quando é possível.
Dor pélvica crônica
Quando a investigação por imagem não explica a dor.
Como se preparar
O preparo de uma videolaparoscopia é mais simples do que a maioria das pacientes imagina, e a maior parte dele acontece nos dias que antecedem a cirurgia, não na véspera.
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Os exames e a avaliação pré-anestésica
Exames de sangue, avaliação cardiológica quando indicada e uma consulta com o anestesista. É nessa conversa que entram as doenças que você tem, as cirurgias que já fez e tudo o que você toma.
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A lista de medicamentos, inteira
Inclui o que não parece remédio: suplemento, chá, fitoterápico e fórmula manipulada. Anticoagulante, anti-inflamatório e medicamento para emagrecer têm prazos próprios de suspensão, e é a equipe que define cada um. Os prazos estão no guia operatório.
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O jejum
Orientado caso a caso, conforme o horário da cirurgia. Jejum prolongado sem necessidade não ajuda em nada e atrapalha a recuperação.
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O preparo intestinal, quando é o caso
Não é rotina. Entra quando há suspeita de envolvimento do intestino, e aí é explicado com antecedência.
A recuperação começa antes da cirurgia. O posicionamento da FEBRASGO sobre manejo perioperatório em cirurgia ginecológica orienta retomar líquidos e sólidos ainda nas primeiras 24 horas e retirar a sonda vesical nesse mesmo prazo. É o oposto do repouso absoluto que se imaginava necessário há vinte anos.
Como é feita, passo a passo
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Preparo e anestesia
Jejum, avaliação pré-anestésica e anestesia geral. Você dorme antes do início e não sente nada durante a cirurgia.
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Acesso e espaço de trabalho
As pequenas incisões são feitas e o abdome recebe gás carbônico, que afasta a parede dos órgãos e cria espaço para operar com segurança.
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Inspeção de toda a cavidade
Antes de tratar o que foi programado, a equipe examina toda a pelve. A laparoscopia frequentemente revela achados que os exames de imagem não mostraram.
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O tratamento
A duração varia com o que precisa ser feito. Uma laqueadura pode levar menos de uma hora; uma endometriose profunda com acometimento intestinal pode passar de quatro.
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Fechamento e recuperação
As incisões são fechadas com pontos finos. A maior parte das pacientes caminha no mesmo dia.
Os riscos
As complicações possíveis são as de qualquer cirurgia abdominal: sangramento, infecção, trombose e as relacionadas à anestesia. Somam-se a elas as lesões de estruturas vizinhas, bexiga, ureter e intestino.
O peso de cada um desses riscos no seu caso é dimensionado na consulta, com os seus exames na mesa. É por isso que a avaliação antes da cirurgia importa tanto, e é por isso que a equipe e o hospital são escolhidos caso a caso.
Dois fatores pesam mais do que qualquer tecnologia: o que será operado e quem opera. Cirurgia abdominal anterior, endometriose profunda, doença inflamatória pélvica no passado e útero muito volumoso tornam o procedimento mais longo e exigem mais da equipe.
Quando a cirurgia muda de via
Essa frase aparece no termo de consentimento na véspera e costuma estragar a noite: "pode haver necessidade de conversão para cirurgia aberta".
Converter não é a cirurgia dar errado. Converter é a cirurgia dar certo por outro caminho.
A diferença entre 0,7% e 3,93% é a diferença entre tipos de cirurgia e perfis de paciente. É por isso que só faz sentido falar do seu caso, e não de uma média.
Por que acontece
A laparoscopia começa com informação incompleta. O ultrassom e a ressonância mostram muito, e não mostram tudo. Aderência fina de uma cesárea antiga, uma infecção pélvica esquecida há vinte anos, um foco que colou o intestino ao útero: nada disso aparece com precisão antes de a câmera entrar.
As três situações que indicam mudar
Por segurança imediata, quando um sangramento não se controla por essa via ou há suspeita de lesão que precisa ser reparada sob visão direta. Por impossibilidade técnica, quando a pelve está tomada por aderências e a visão não permite identificar o ureter com clareza, operar às cegas para manter a via seria trocar o seu risco pelo orgulho da técnica. E por condição da paciente na mesa, quando o organismo não tolera por mais tempo a posição inclinada e a pressão do gás.
O que não é motivo para converter: cansaço, pressa e hora do dia.
O que muda para você
O gás é retirado e a equipe passa para uma incisão abdominal. Os orifícios da laparoscopia são fechados normalmente e a cirurgia é concluída no mesmo tempo anestésico. Você não acorda no meio, não precisa de nova internação e não perde o procedimento que foi marcar. A internação passa a ser de dois a quatro dias, e os prazos de peso e esforço passam a ser os da cirurgia aberta.
Se acontecer no seu caso, a equipe conversa com você ainda na internação, explicando o que foi encontrado e o que foi feito. Isso consta da descrição cirúrgica, que é sua e você pode pedir.
Recuperação: quanto tempo, de verdade
A resposta honesta é que depende do que foi operado. "Laparoscopia" não é uma coisa só. Os prazos abaixo são o que observamos na prática, e cada caso varia:
| Procedimento | Internação | Trabalho | Exercício |
|---|---|---|---|
| Laqueadura tubária | 12 horas | 3 a 5 dias | 2 semanas |
| Cistectomia de ovário | 12 a 24 horas | 7 a 10 dias | 3 a 4 semanas |
| Endometriose superficial | 12 a 24 horas | 7 a 14 dias | 4 semanas |
| Miomectomia | 24 a 48 horas | 14 a 21 dias | 6 semanas |
| Histerectomia laparoscópica | 24 a 48 horas | 21 a 30 dias | 6 a 8 semanas |
| Endometriose profunda com ressecção intestinal | 3 a 5 dias | 30 a 45 dias | 8 semanas |
Calcule as suas datas
Coloque a data da cirurgia e veja as faixas que costumamos usar. São referências para conversar na revisão, não liberações automáticas.
Estes prazos são orientações gerais e não substituem a avaliação individual. A recuperação depende do procedimento realizado, das condições clínicas de cada paciente e dos achados durante a cirurgia.
A dor no ombro, que ninguém avisa
Muita gente descobre sozinha, no segundo dia: dói o ombro, quase sempre o direito, às vezes a ponta da escápula ou a base do pescoço. Assusta justamente por não fazer sentido nenhum, e a explicação é simples.
Para operar, o abdome é inflado com gás carbônico. No fim da cirurgia esse gás é aspirado, e sempre sobra um resíduo, que sobe e se acomoda embaixo do diafragma. O diafragma é inervado pelo nervo frênico, que nasce nas raízes cervicais C3, C4 e C5. As mesmas que levam sensibilidade à pele do ombro. O cérebro recebe o estímulo e o localiza no lugar errado. Chama-se dor referida: o problema está embaixo das costelas e a sensação aparece no ombro.
Ela começa nas primeiras horas, é pior no primeiro e no segundo dia e cede conforme o gás é absorvido, entre o terceiro e o sétimo. Caminhar ajuda, e é por isso que pedimos que você levante ainda no dia da cirurgia. A mesma sobra de gás explica a barriga estufada e o desconforto ao respirar fundo.
Quando você volta a dirigir, treinar e trabalhar
Quase nenhum desses prazos vem de estudo. Uma revisão publicada em 2023 varreu cinco bases atrás de orientação sobre voltar a dirigir depois de cirurgia abdominal e encontrou recomendações que vão de uma a dez semanas, com seis semanas como o número mais citado. Num levantamento com 135 ginecologistas, o tempo de formado do médico mudava o prazo que ele dava.
Então o que segue é convenção da nossa equipe, construída sobre critério funcional. A coluna da direita manda mais que a data.
| Atividade | Prazo habitual | O critério que decide |
|---|---|---|
| Caminhar em casa | No mesmo dia | Tolerância |
| Trabalho sentado | 7 a 14 dias | Sem analgésico forte, conseguir sentar por horas |
| Dirigir | 7 a 14 dias | Sem opioide e conseguir uma freada de emergência sem dor |
| Carregar mais de 5 kg | 2 a 4 semanas | Parede abdominal sem dor ao esforço |
| Academia sem carga | 2 a 3 semanas | Incisões secas e fechadas |
| Musculação com carga | 4 a 6 semanas | Liberação na revisão, retomando com metade do peso |
| Abdominal e alta intensidade | 6 a 8 semanas | Liberação individual |
| Piscina, mar e banheira | 2 a 3 semanas | Incisões completamente fechadas. Chuveiro está liberado desde o primeiro dia |
| Relação sexual | 2 a 6 semanas | Prazo maior quando houve sutura na vagina |
O teste para voltar ao volante
Usamos três critérios, e não o calendário: estar sem opioide e sem qualquer medicação que dê sonolência; conseguir fazer o movimento de uma freada de emergência, com força e sem hesitar por dor; e conseguir olhar por cima do ombro e manobrar em ré sem travar. Se os três estão de pé, você dirige.
Orientação individualizada encurta o afastamento de verdade. Num estudo holandês com 433 mulheres operadas por laparoscopia, a mediana até o retorno pleno ao trabalho caiu de 62 para 49 dias no grupo que recebeu um plano de convalescença combinado, em vez de uma folha genérica. É por isso que insistimos em combinar prazos com você.
Dor é informação, não obstáculo a vencer. Um movimento que dói é um movimento que ainda não chegou a hora.
Videolaparoscopia, robótica ou cirurgia aberta
A via que costuma ficar fora da conversa
Antes de comparar laparoscopia com robótica, existe uma via que quase nunca entra na discussão por não ter equipamento para anunciar: a via vaginal. Quando a retirada do útero pode ser feita por ela, a Cochrane é explícita em preferi-la, devolve a paciente à vida normal cerca de onze dias antes da via aberta, tem menos infecção de parede, internação mais curta e não deixa cicatriz nenhuma no abdome.
Na comparação entre a via vaginal e a laparoscopia, os desfechos principais não mostraram diferença, e as complicações foram raras nos dois grupos. A escolha entre elas é técnica e depende do seu caso: tamanho do útero, mobilidade, cirurgias anteriores e o que mais precisa ser tratado na mesma cirurgia.
Videolaparoscopia
- Incisões de menos de 1 cm
- Recuperação mais rápida que a via aberta
- Menos dor no pós-operatório
- Imagem ampliada, que favorece a precisão
- Internação curta na maior parte dos casos
Cirurgia aberta
- Corte único e largo no abdome
- Recuperação mais longa
- Internação em geral maior
- Segue indicada em situações específicas
Uma revisão sistemática da Cochrane com 63 estudos e 6.811 mulheres mostrou que as vias vaginal e laparoscópica devolvem a paciente à vida normal cerca de duas semanas antes da cirurgia aberta, com menos infecção de parede e internação mais curta. É por isso que a via aberta deixou de ser a primeira escolha na doença benigna.
Pickett CM et al. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2023.Sobre a cirurgia robótica em doença ginecológica benigna, as revisões disponíveis até aqui não demonstraram superioridade clínica consistente sobre a laparoscopia convencional. A escolha da via considera o seu caso e a experiência da equipe, não a tecnologia como argumento em si.
Onde operamos
Realizamos videolaparoscopia em sete unidades hospitalares de São Paulo e região. Saber em quais hospitais a equipe atua é o ponto mais prático para quem tem plano de saúde, porque é a combinação entre o hospital e o seu contrato que define o caminho do atendimento.
- Hospital Samaritano, Paulista
- Hospital Samaritano, Higienópolis
- Hospital Blanc
- Hospital Leforte, Liberdade
- Hospital São Luiz, Alphaville
- Hospital São Luiz, Morumbi
- Hospital Alvorada, Moema
Atendemos nestes hospitais por credenciamento médico. A cobertura do seu atendimento depende do seu contrato com a operadora, e deve ser confirmada diretamente com ela.
Como funciona com plano de saúde
O atendimento acontece por meio do credenciamento médico, nos hospitais listados acima. A videolaparoscopia ginecológica consta no rol de procedimentos da ANS, e havendo indicação médica ela costuma ter cobertura.
Ainda assim, a confirmação precisa vir da sua operadora. Cada contrato tem regras próprias de rede, carência e autorização prévia, e só a operadora pode dizer o que se aplica ao seu caso. Antes de agendar, entre em contato com o seu plano e confirme a cobertura do atendimento e do hospital escolhido.
Se precisar, fornecemos o relatório médico com a indicação clínica e os códigos do procedimento, que é o documento solicitado nesse processo.
Dúvidas frequentes
A videolaparoscopia dói?
A cirurgia é feita sob anestesia geral, então não há dor durante o procedimento. No pós-operatório, o desconforto costuma ser menor que o da cirurgia aberta. A queixa mais comum nos primeiros dias é dor no ombro, causada pelo gás usado durante a cirurgia, que se resolve sozinha.
Quantos cortes ficam?
Em geral três ou quatro incisões de meio a um centímetro, distribuídas pelo abdome inferior e uma na cicatriz umbilical.
Preciso ficar internada?
Depende do procedimento. Casos mais simples permitem alta no mesmo dia ou em até 12 horas. Cirurgias maiores exigem um a dois dias de internação, e casos com ressecção intestinal podem precisar de mais.
Posso engravidar depois?
A videolaparoscopia em si não impede a gravidez, e em várias situações é justamente o que melhora as condições para engravidar. O que muda o prognóstico é o que foi tratado e o estado dos ovários e das tubas, algo que precisa ser avaliado caso a caso.
Fica cicatriz?
As incisões são pequenas e tendem a ficar discretas com o tempo. A resposta de cicatrização varia entre as pessoas.
Quem vai me operar?
A videolaparoscopia é realizada pelos cirurgiões do Instituto de Ginecologia Avançada, com formação específica em endoscopia ginecológica e cirurgia minimamente invasiva. Conheça a equipe, com a formação e o registro de cada profissional.
A dor no ombro é sinal de que algo deu errado?
Não. É dor referida do gás que sobrou embaixo do diafragma, prevista e passageira, com pico no primeiro e no segundo dia. O que merece contato com a equipe é dor que cresce em vez de diminuir, febre ou falta de ar.
Se a cirurgia virar aberta, eu acordo no meio?
Não. A mudança de via acontece no mesmo tempo anestésico, e você acorda uma vez só, no fim. A equipe explica depois o que foi encontrado e o que foi feito, e isso consta da descrição cirúrgica, que é sua e você pode pedir.
Quando eu posso voltar a dirigir?
Quando estiver sem opioide e conseguir fazer uma freada de emergência sem dor nem hesitação. Isso costuma acontecer entre o sétimo e o décimo quarto dia. Não existe estudo que fixe uma data: a recomendação publicada na literatura varia de uma a dez semanas, o que diz mais sobre a falta de evidência do que sobre o seu corpo.
· por Dr. Carlos Guilherme Del Roy
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. A indicação de qualquer procedimento depende de avaliação individual.