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Endometriose em São Paulo

Cólica que atrapalha a rotina não é normal. A endometriose tem diagnóstico definido, e desde 2022 não é mais preciso operar para descobrir se você tem.

7 hospitais em São Paulo Equipe especializada Atendimento por credenciamento 14 min de leitura

O que é a endometriose

Endometriose é a presença de tecido semelhante ao endométrio, o revestimento interno do útero, fora da cavidade uterina. Esse tecido responde ao ciclo hormonal, sangra, inflama e cicatriza mês após mês.

A inflamação repetida gera aderência, a colagem de órgãos que deveriam deslizar, e fibrose, a cicatriz endurecida. Daí vêm a cólica que aumenta com os anos, a dor na relação, a dor para evacuar durante a menstruação e a dificuldade para engravidar.

Em 90 segundos: por que não é mais preciso operar para descobrir, e o que o exame de imagem certo mostra.

0,3 a 12anos até o diagnóstico, conforme o país e a definição
2022o ano em que a cirurgia deixou de ser exigida para diagnosticar
97%de sensibilidade do ultrassom com preparo para doença de ureter

O atraso no diagnóstico foi medido numa revisão sistemática de 17 estudos publicada em 2025, que apontou o atraso como conduzido principalmente pelos profissionais de saúde. Cólica tratada como normal e ultrassom sem preparo respondem por boa parte desses anos.

Os sintomas

Cólica que aumenta com os anos

Dor menstrual que piora progressivamente e que continua fora do período menstrual.

Dor na relação

Dor profunda na penetração, ligada aos ligamentos atrás do útero. Dor que se repete tem gerador, quase sempre identificável no exame.

Dor para evacuar na menstruação

A retração fibrosa aproxima o reto da parede do útero. Pode vir com sangramento ao evacuar no período.

Sintomas urinários

Dor ao encher a bexiga e vontade frequente, piores na menstruação. Atenção: a ausência de sintoma urinário não exclui o acometimento do ureter.

Dificuldade para engravidar

Ligada à anatomia da pelve, aos ovários e à inflamação.

Dor pélvica fora do período

Dor que não respeita o calendário menstrual e que aparece ao longo do mês.

Dor na relação é normal? Não é. Frequente não é o mesmo que esperado.

Investigamos as duas doenças, endometriose e adenomiose, sempre que houver cólica que atrapalha a rotina, sangramento que causa anemia, dor durante ou depois da relação, ou dificuldade para engravidar

Você não precisa operar para descobrir

Essa frase teria sido errada alguns anos atrás, e hoje é o que dizem as três principais diretrizes do assunto.

  1. 1

    2022, a Europa retira a laparoscopia do posto de padrão-ouro

    A ESHRE publicou sua diretriz de endometriose com 109 recomendações e passou a recomendar que o diagnóstico se apoie em história clínica, exame físico e imagem, e que a ausência de achado na laparoscopia não exclua a doença.

  2. 2

    2024, o Reino Unido segue na mesma direção

    A NICE atualizou sua diretriz em novembro de 2024 com a mesma orientação.

  3. 3

    2026, o Brasil leva a virada para o SUS

    O Protocolo Clínico do Ministério da Saúde orienta considerar o diagnóstico pela história e pelo exame, admite começar tratamento sem confirmação cirúrgica, registra que exame de imagem normal não exclui a doença e diz que o uso do CA-125 deve ser abandonado.

Na prática: com sintoma compatível e imagem sugestiva, o tratamento pode começar. A cirurgia volta a ser o que sempre deveria ter sido: um tratamento, e não um exame.

O que cada exame faz e não faz
ExamePara que serveLimite
Ultrassom transvaginal comumVer endometrioma de ovárioInsuficiente para doença profunda
Ultrassom com preparo intestinalMapear doença profunda em reto, ligamentos, bexiga e ureterDepende muito do treino de quem faz
Ressonância de pelveMapear compartimentos e planejar a cirurgiaNão vê lesão superficial de forma confiável
LaparoscopiaTratar, e biopsiar quando necessárioAchado normal não exclui a doença
Marcadores no sangue ou salivaNenhum papel definido fora de pesquisaComercializados antes da validação

O que determina o resultado é quem faz. Um ultrassom transvaginal comum, sem preparo e sem mapeamento dirigido, costuma sair normal em quem tem doença profunda.

Duas perguntas para levar à consulta: meu ultrassom foi feito com preparo intestinal e mapeamento dirigido? Quem fez o exame tem treino específico em endometriose?

O ultrassom com preparo intestinal é um transvaginal com dois acréscimos: o preparo, feito na véspera e na manhã do exame, que esvazia o reto e permite ver a parede intestinal; e o tempo de exame, maior, porque o operador percorre compartimento por compartimento. É feito acordada, sem anestesia, e o desconforto é semelhante ao de um ultrassom transvaginal comum.

Os três tipos

A doença aparece em três formas, e a diferença entre elas governa a decisão de tratamento. Um mesmo corpo pode ter as três.

Os três tipos de endometriose
TipoOnde ficaO que muda no tratamento
SuperficialNa membrana que reveste a pelveO cirurgião ressecca ou coagula os focos e libera aderências
EndometriomaCisto de conteúdo achocolatado dentro do ovárioRetira-se a cápsula ou se drena e trata a parede, escolha que pesa a reserva ovariana
ProfundaInfiltra mais de 5 mm e alcança ligamentos, septo, intestino, bexiga ou ureterO trabalho é de dissecção, com equipe multidisciplinar

No endometrioma, o reflexo de retirar todo cisto tem custo: uma metanálise encontrou queda do hormônio antimülleriano de 44,4%, 35,1% e 54,2% em três momentos do pós-operatório. Quando há desejo de gravidez, medimos a reserva antes e discutimos as opções antes de decidir a técnica.

O tratamento clínico vem primeiro

Endometriose não tem indicação cirúrgica automática. Boa parte das mulheres começa e segue com tratamento clínico e nunca chega à sala de cirurgia. As diretrizes internacionais colocam o tratamento clínico como primeira linha para a dor.

O tratamento hormonal controla o estímulo que alimenta a lesão e trata a dor com bom resultado documentado: em dois ensaios de fase 3 publicados na Lancet, 75% das pacientes em terapia combinada atingiram o critério de resposta para cólica menstrual, contra 27% e 30% no placebo.

O remédio não dissolve nódulo profundo, não desfaz aderência e não corrige obstrução de ureter. É aí que a cirurgia tem indicação.

O remédio e a cirurgia não disputam o mesmo lugar

Quando a cirurgia é indicada

A operação entra quando a dor persiste apesar de tratamento clínico bem conduzido, quando a doença compromete intestino, bexiga ou ureter, quando existe um endometrioma com indicação própria, ou quando a dificuldade para engravidar e a doença se cruzam de um jeito que muda o plano.

Quando a cirurgia entra na conversa
SituaçãoO que vem primeiroQuando a cirurgia entra
Cólica intensa, sem nódulo profundoHormonal contínuo e analgesiaSe a dor persiste após tratamento adequado
Endometrioma pequeno, assintomáticoAcompanhamento por imagem e hormonalCrescimento, dor, dúvida sobre a natureza
Nódulo profundo com sintomaDiscussão individual desde o inícioDor refratária, sangramento ao evacuar, suboclusão
Endometriose de ureter com dilatação do rimAvaliação urológica imediataIndicação cirúrgica, para preservar a função renal
Infertilidade com endometrioseAvaliação conjunta com reprodução humanaQuando a cirurgia muda a chance de engravidar

A revisão Cochrane de 2020, com 14 ensaios e 1.563 mulheres, encontrou evidência de qualidade moderada de aumento de gravidez viável depois da laparoscopia. Operar ajuda, e quanto de alívio da dor esperar no seu caso é conversado na consulta, com os seus exames na mesa.

Sobre a histerectomia: não como regra. Ela entra em casos selecionados, em geral com adenomiose associada, sangramento intenso e prole definida. Retirar o útero não trata os focos fora dele.

Endometriose profunda: o que muda

O que muda em relação à doença superficial não é o diagnóstico, é a natureza do trabalho cirúrgico: em vez de tratar focos numa membrana, dissecam-se órgãos colados uns aos outros, ao lado de nervos e do ureter.

O trabalho por compartimento
CompartimentoO que costuma ser feitoQuem entra na sala
Ligamentos e septo retovaginalRessecção do nódulo com liberação do retoGinecologia cirúrgica
Intestino, nódulo pequenoRaspagem da parede, preservando o órgãoGinecologia, com coloproctologia disponível
Intestino, nódulo maiorRessecção em disco ou de segmentoGinecologia e coloproctologia
UreterUreterólise, liberando o ureter da fibroseGinecologia e urologia
BexigaRessecção do nódulo, com sutura e sonda por alguns diasGinecologia e urologia
Nervos pélvicosTécnica com preservação de nervosGinecologia cirúrgica

Quando o mapa mostra intestino, ureter ou bexiga, a equipe multidisciplinar deixa de ser um detalhe: o especialista do órgão precisa estar na sala, não a caminho. A composição do time é definida na consulta que antecede a cirurgia, e não no dia.

Numa revisão de 1.337 pacientes operadas de endometriose de ureter, sintoma obstrutivo urinário estava presente em apenas 9,9% dos casos.

Um ureter comprimido pode perder função renal sem avisar. Por isso o mapeamento por imagem antes da cirurgia não é opcional

Riscos que precisam estar ditos antes, na cirurgia do ureter: lesão durante a cirurgia em 3,1% dos casos, fístula em 2,8%, estenose em 24,2%. Na cirurgia do intestino, o risco de deiscência, de fístula e a possibilidade de estoma temporário. A retenção urinária temporária depois da dissecção profunda também acontece, e é a razão da técnica com preservação de nervos.

Recuperação: três degraus diferentes

A recuperação se define pela extensão do que foi feito, e não pelo diagnóstico escrito no pedido. A separação honesta tem três degraus.

Recuperação por extensão da cirurgia
SuperficialProfunda sem intestinoProfunda com intestino
InternaçãoMesmo dia ou 24 h1 a 2 diasMediana de 4,8 dias com protocolo ERAS
DietaLivre no mesmo diaLivre em 24 hProgressiva, conforme o trânsito
Esforço e academiaA partir de 2 semanasA partir de 3 a 4 semanasRetomada mais lenta
Volta ao trabalhoA partir de 1 a 2 semanasA partir de 2 a 3 semanasAcompanha a alta mais algumas semanas

Os prazos de esforço, academia e volta ao trabalho não vêm de ensaio clínico em endometriose: não existe estudo randomizado que tenha medido retorno ao trabalho por tipo de cirurgia de endometriose. São conduta de equipe, calibrada caso a caso.

A dor das incisões costuma ceder em poucos dias. A dor no ombro, causada pelo gás usado para inflar o abdome, aparece nas primeiras 48 horas e passa com movimento. A dor pélvica profunda cede mais devagar e pode oscilar com o primeiro ciclo menstrual depois da cirurgia.

Sinais de alerta: febre, dor que aumenta em vez de diminuir, vermelhidão ou secreção nas incisões, dificuldade para urinar, barriga distendida com parada de eliminação de gases, sangramento vaginal intenso. Nas cirurgias com intestino tratado, acrescente qualquer saída de conteúdo pela vagina.

Pode voltar depois da cirurgia?

Pode voltar. Endometriose é doença crônica e dependente de hormônio: a cirurgia remove o que existe, e não desliga o mecanismo que produziu a lesão.

Três coisas diferentes são chamadas de "voltou":

  1. 1

    Doença nova

    Gerada pelo mesmo processo que produziu a primeira. Enquanto houver ciclo menstrual e estímulo hormonal, novos focos podem surgir.

  2. 2

    Doença residual

    Aquilo que não foi retirado na primeira cirurgia, por não ter sido visto ou por decisão de preservar um órgão.

  3. 3

    Dor sem lesão nova

    Vem de aderência, fibrose já instalada ou de sensibilização do sistema nervoso à dor crônica. A imagem mostra normal. Esse caso é comum, e operar de novo não o resolve.

O que reduz o risco

A supressão hormonal depois da cirurgia é a medida com melhor evidência: risco relativo de 0,41 em metanálise com 14 estudos e 1.766 pacientes. O protocolo brasileiro recomenda o bloqueio por seis meses, mantido depois com anticoncepcional ou progestágeno até que haja desejo de gravidez.

A segunda medida é a primeira cirurgia ser completa, por equipe habituada. Cada reoperação em pelve já operada enfrenta aderência e planos cirúrgicos perdidos. No ovário, o custo é direto: reoperar um endometrioma retira mais tecido ovariano saudável junto, e a reserva não volta.

Uma segunda cirurgia se discute quando existe lesão nova documentada por imagem, com sintoma correspondente, e depois de um ciclo real de tratamento clínico. Dor isolada, com exame sem alteração, pede investigação de outras causas antes de qualquer nova indicação.

Onde operamos

Atendemos por credenciamento médico nestes sete hospitais:

  • Hospital Samaritano Paulista
  • Hospital Samaritano Higienópolis
  • Hospital Blanc
  • Hospital Leforte Liberdade
  • Hospital São Luiz Alphaville
  • Hospital São Luiz Morumbi
  • Hospital Alvorada

Atendemos nestes hospitais por credenciamento médico. A cobertura do seu atendimento depende do seu contrato com a operadora, e deve ser confirmada diretamente com ela.

Como funciona com plano de saúde

O tratamento cirúrgico da endometriose consta no rol de procedimentos da ANS e, havendo indicação médica, costuma ter cobertura. A autorização depende de cada contrato, e cirurgias com equipe multidisciplinar exigem justificativa detalhada.

Nossa equipe emite o relatório com justificativa clínica e o código do procedimento, e acompanha o pedido até a resposta.

Dúvidas frequentes

Ainda é preciso operar para descobrir endometriose?

Não como regra. A diretriz europeia retirou a laparoscopia do papel de padrão-ouro diagnóstico em 2022, a britânica seguiu em novembro de 2024 e a americana publicou diretriz própria de diagnóstico em 2026. O diagnóstico clínico com imagem permite iniciar o tratamento.

Tomar remédio resolve ou tenho que operar?

Para a dor, o tratamento hormonal é a primeira linha nas diretrizes e resolve para boa parte das mulheres. Ele não trata obstrução de ureter, nódulo que sangra no intestino e aderência instalada.

Anticoncepcional contínuo trata ou só esconde?

Trata o estímulo que alimenta a lesão e controla a dor, e não remove o que já está infiltrado e fibrosado. Suspender o hormônio costuma trazer o sintoma de volta, o que mostra o efeito e também o limite dele.

Endometriose tem que tirar o útero?

Não como regra. A histerectomia entra em casos selecionados, em geral com adenomiose associada, sangramento intenso e prole definida. Retirar o útero não trata os focos fora dele.

Ressonância normal exclui endometriose?

Não. A ressonância mapeia bem doença profunda e endometrioma, e não identifica lesão superficial de forma confiável. Exame normal com sintoma persistente pede reavaliação, não alta.

Por que demorou tanto para descobrirem a minha?

A revisão de 2025 encontrou tempos até o diagnóstico entre 0,3 e 12 anos e apontou que o atraso é conduzido principalmente pelos profissionais de saúde. Cólica tratada como normal e ultrassom sem preparo respondem por boa parte desses anos.

Voltou a doer. A endometriose voltou?

Não necessariamente. Dor depois da cirurgia pode vir de aderência, de fibrose antiga ou de dor pélvica crônica já estabelecida, com exame de imagem normal. Investigar antes de operar de novo evita cirurgia que não resolve.

Vou precisar tirar um pedaço do intestino?

Nem sempre. A raspagem da parede e a ressecção em disco preservam o órgão. No ensaio randomizado que comparou as técnicas, 7,4% do braço conservador acabaram precisando de ressecção de segmento.

Existe exame de sangue para endometriose?

Nenhum marcador de sangue ou saliva tem validação para uso clínico fora de pesquisa. O protocolo brasileiro diz, com todas as letras, que o uso do CA-125 deve ser abandonado.

· por Dr. Lucas G. S. Baptista

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. A indicação de qualquer procedimento depende de avaliação individual.