O que é a endometriose
Endometriose é a presença de tecido semelhante ao endométrio, o revestimento interno do útero, fora da cavidade uterina. Esse tecido responde ao ciclo hormonal, sangra, inflama e cicatriza mês após mês.
A inflamação repetida gera aderência, a colagem de órgãos que deveriam deslizar, e fibrose, a cicatriz endurecida. Daí vêm a cólica que aumenta com os anos, a dor na relação, a dor para evacuar durante a menstruação e a dificuldade para engravidar.
Em 90 segundos: por que não é mais preciso operar para descobrir, e o que o exame de imagem certo mostra.
O atraso no diagnóstico foi medido numa revisão sistemática de 17 estudos publicada em 2025, que apontou o atraso como conduzido principalmente pelos profissionais de saúde. Cólica tratada como normal e ultrassom sem preparo respondem por boa parte desses anos.
Os sintomas
Cólica que aumenta com os anos
Dor menstrual que piora progressivamente e que continua fora do período menstrual.
Dor na relação
Dor profunda na penetração, ligada aos ligamentos atrás do útero. Dor que se repete tem gerador, quase sempre identificável no exame.
Dor para evacuar na menstruação
A retração fibrosa aproxima o reto da parede do útero. Pode vir com sangramento ao evacuar no período.
Sintomas urinários
Dor ao encher a bexiga e vontade frequente, piores na menstruação. Atenção: a ausência de sintoma urinário não exclui o acometimento do ureter.
Dificuldade para engravidar
Ligada à anatomia da pelve, aos ovários e à inflamação.
Dor pélvica fora do período
Dor que não respeita o calendário menstrual e que aparece ao longo do mês.
Dor na relação é normal? Não é. Frequente não é o mesmo que esperado.
Investigamos as duas doenças, endometriose e adenomiose, sempre que houver cólica que atrapalha a rotina, sangramento que causa anemia, dor durante ou depois da relação, ou dificuldade para engravidarVocê não precisa operar para descobrir
Essa frase teria sido errada alguns anos atrás, e hoje é o que dizem as três principais diretrizes do assunto.
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1
2022, a Europa retira a laparoscopia do posto de padrão-ouro
A ESHRE publicou sua diretriz de endometriose com 109 recomendações e passou a recomendar que o diagnóstico se apoie em história clínica, exame físico e imagem, e que a ausência de achado na laparoscopia não exclua a doença.
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2
2024, o Reino Unido segue na mesma direção
A NICE atualizou sua diretriz em novembro de 2024 com a mesma orientação.
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3
2026, o Brasil leva a virada para o SUS
O Protocolo Clínico do Ministério da Saúde orienta considerar o diagnóstico pela história e pelo exame, admite começar tratamento sem confirmação cirúrgica, registra que exame de imagem normal não exclui a doença e diz que o uso do CA-125 deve ser abandonado.
Na prática: com sintoma compatível e imagem sugestiva, o tratamento pode começar. A cirurgia volta a ser o que sempre deveria ter sido: um tratamento, e não um exame.
| Exame | Para que serve | Limite |
|---|---|---|
| Ultrassom transvaginal comum | Ver endometrioma de ovário | Insuficiente para doença profunda |
| Ultrassom com preparo intestinal | Mapear doença profunda em reto, ligamentos, bexiga e ureter | Depende muito do treino de quem faz |
| Ressonância de pelve | Mapear compartimentos e planejar a cirurgia | Não vê lesão superficial de forma confiável |
| Laparoscopia | Tratar, e biopsiar quando necessário | Achado normal não exclui a doença |
| Marcadores no sangue ou saliva | Nenhum papel definido fora de pesquisa | Comercializados antes da validação |
O que determina o resultado é quem faz. Um ultrassom transvaginal comum, sem preparo e sem mapeamento dirigido, costuma sair normal em quem tem doença profunda.
Duas perguntas para levar à consulta: meu ultrassom foi feito com preparo intestinal e mapeamento dirigido? Quem fez o exame tem treino específico em endometriose?O ultrassom com preparo intestinal é um transvaginal com dois acréscimos: o preparo, feito na véspera e na manhã do exame, que esvazia o reto e permite ver a parede intestinal; e o tempo de exame, maior, porque o operador percorre compartimento por compartimento. É feito acordada, sem anestesia, e o desconforto é semelhante ao de um ultrassom transvaginal comum.
Os três tipos
A doença aparece em três formas, e a diferença entre elas governa a decisão de tratamento. Um mesmo corpo pode ter as três.
| Tipo | Onde fica | O que muda no tratamento |
|---|---|---|
| Superficial | Na membrana que reveste a pelve | O cirurgião ressecca ou coagula os focos e libera aderências |
| Endometrioma | Cisto de conteúdo achocolatado dentro do ovário | Retira-se a cápsula ou se drena e trata a parede, escolha que pesa a reserva ovariana |
| Profunda | Infiltra mais de 5 mm e alcança ligamentos, septo, intestino, bexiga ou ureter | O trabalho é de dissecção, com equipe multidisciplinar |
No endometrioma, o reflexo de retirar todo cisto tem custo: uma metanálise encontrou queda do hormônio antimülleriano de 44,4%, 35,1% e 54,2% em três momentos do pós-operatório. Quando há desejo de gravidez, medimos a reserva antes e discutimos as opções antes de decidir a técnica.
O tratamento clínico vem primeiro
Endometriose não tem indicação cirúrgica automática. Boa parte das mulheres começa e segue com tratamento clínico e nunca chega à sala de cirurgia. As diretrizes internacionais colocam o tratamento clínico como primeira linha para a dor.
O tratamento hormonal controla o estímulo que alimenta a lesão e trata a dor com bom resultado documentado: em dois ensaios de fase 3 publicados na Lancet, 75% das pacientes em terapia combinada atingiram o critério de resposta para cólica menstrual, contra 27% e 30% no placebo.
O remédio não dissolve nódulo profundo, não desfaz aderência e não corrige obstrução de ureter. É aí que a cirurgia tem indicação.
O remédio e a cirurgia não disputam o mesmo lugarQuando a cirurgia é indicada
A operação entra quando a dor persiste apesar de tratamento clínico bem conduzido, quando a doença compromete intestino, bexiga ou ureter, quando existe um endometrioma com indicação própria, ou quando a dificuldade para engravidar e a doença se cruzam de um jeito que muda o plano.
| Situação | O que vem primeiro | Quando a cirurgia entra |
|---|---|---|
| Cólica intensa, sem nódulo profundo | Hormonal contínuo e analgesia | Se a dor persiste após tratamento adequado |
| Endometrioma pequeno, assintomático | Acompanhamento por imagem e hormonal | Crescimento, dor, dúvida sobre a natureza |
| Nódulo profundo com sintoma | Discussão individual desde o início | Dor refratária, sangramento ao evacuar, suboclusão |
| Endometriose de ureter com dilatação do rim | Avaliação urológica imediata | Indicação cirúrgica, para preservar a função renal |
| Infertilidade com endometriose | Avaliação conjunta com reprodução humana | Quando a cirurgia muda a chance de engravidar |
A revisão Cochrane de 2020, com 14 ensaios e 1.563 mulheres, encontrou evidência de qualidade moderada de aumento de gravidez viável depois da laparoscopia. Operar ajuda, e quanto de alívio da dor esperar no seu caso é conversado na consulta, com os seus exames na mesa.
Sobre a histerectomia: não como regra. Ela entra em casos selecionados, em geral com adenomiose associada, sangramento intenso e prole definida. Retirar o útero não trata os focos fora dele.
Endometriose profunda: o que muda
O que muda em relação à doença superficial não é o diagnóstico, é a natureza do trabalho cirúrgico: em vez de tratar focos numa membrana, dissecam-se órgãos colados uns aos outros, ao lado de nervos e do ureter.
| Compartimento | O que costuma ser feito | Quem entra na sala |
|---|---|---|
| Ligamentos e septo retovaginal | Ressecção do nódulo com liberação do reto | Ginecologia cirúrgica |
| Intestino, nódulo pequeno | Raspagem da parede, preservando o órgão | Ginecologia, com coloproctologia disponível |
| Intestino, nódulo maior | Ressecção em disco ou de segmento | Ginecologia e coloproctologia |
| Ureter | Ureterólise, liberando o ureter da fibrose | Ginecologia e urologia |
| Bexiga | Ressecção do nódulo, com sutura e sonda por alguns dias | Ginecologia e urologia |
| Nervos pélvicos | Técnica com preservação de nervos | Ginecologia cirúrgica |
Quando o mapa mostra intestino, ureter ou bexiga, a equipe multidisciplinar deixa de ser um detalhe: o especialista do órgão precisa estar na sala, não a caminho. A composição do time é definida na consulta que antecede a cirurgia, e não no dia.
Numa revisão de 1.337 pacientes operadas de endometriose de ureter, sintoma obstrutivo urinário estava presente em apenas 9,9% dos casos.
Um ureter comprimido pode perder função renal sem avisar. Por isso o mapeamento por imagem antes da cirurgia não é opcionalRiscos que precisam estar ditos antes, na cirurgia do ureter: lesão durante a cirurgia em 3,1% dos casos, fístula em 2,8%, estenose em 24,2%. Na cirurgia do intestino, o risco de deiscência, de fístula e a possibilidade de estoma temporário. A retenção urinária temporária depois da dissecção profunda também acontece, e é a razão da técnica com preservação de nervos.
Recuperação: três degraus diferentes
A recuperação se define pela extensão do que foi feito, e não pelo diagnóstico escrito no pedido. A separação honesta tem três degraus.
| Superficial | Profunda sem intestino | Profunda com intestino | |
|---|---|---|---|
| Internação | Mesmo dia ou 24 h | 1 a 2 dias | Mediana de 4,8 dias com protocolo ERAS |
| Dieta | Livre no mesmo dia | Livre em 24 h | Progressiva, conforme o trânsito |
| Esforço e academia | A partir de 2 semanas | A partir de 3 a 4 semanas | Retomada mais lenta |
| Volta ao trabalho | A partir de 1 a 2 semanas | A partir de 2 a 3 semanas | Acompanha a alta mais algumas semanas |
Os prazos de esforço, academia e volta ao trabalho não vêm de ensaio clínico em endometriose: não existe estudo randomizado que tenha medido retorno ao trabalho por tipo de cirurgia de endometriose. São conduta de equipe, calibrada caso a caso.
A dor das incisões costuma ceder em poucos dias. A dor no ombro, causada pelo gás usado para inflar o abdome, aparece nas primeiras 48 horas e passa com movimento. A dor pélvica profunda cede mais devagar e pode oscilar com o primeiro ciclo menstrual depois da cirurgia.
Sinais de alerta: febre, dor que aumenta em vez de diminuir, vermelhidão ou secreção nas incisões, dificuldade para urinar, barriga distendida com parada de eliminação de gases, sangramento vaginal intenso. Nas cirurgias com intestino tratado, acrescente qualquer saída de conteúdo pela vagina.
Pode voltar depois da cirurgia?
Pode voltar. Endometriose é doença crônica e dependente de hormônio: a cirurgia remove o que existe, e não desliga o mecanismo que produziu a lesão.
Três coisas diferentes são chamadas de "voltou":
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1
Doença nova
Gerada pelo mesmo processo que produziu a primeira. Enquanto houver ciclo menstrual e estímulo hormonal, novos focos podem surgir.
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2
Doença residual
Aquilo que não foi retirado na primeira cirurgia, por não ter sido visto ou por decisão de preservar um órgão.
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3
Dor sem lesão nova
Vem de aderência, fibrose já instalada ou de sensibilização do sistema nervoso à dor crônica. A imagem mostra normal. Esse caso é comum, e operar de novo não o resolve.
O que reduz o risco
A supressão hormonal depois da cirurgia é a medida com melhor evidência: risco relativo de 0,41 em metanálise com 14 estudos e 1.766 pacientes. O protocolo brasileiro recomenda o bloqueio por seis meses, mantido depois com anticoncepcional ou progestágeno até que haja desejo de gravidez.
A segunda medida é a primeira cirurgia ser completa, por equipe habituada. Cada reoperação em pelve já operada enfrenta aderência e planos cirúrgicos perdidos. No ovário, o custo é direto: reoperar um endometrioma retira mais tecido ovariano saudável junto, e a reserva não volta.
Uma segunda cirurgia se discute quando existe lesão nova documentada por imagem, com sintoma correspondente, e depois de um ciclo real de tratamento clínico. Dor isolada, com exame sem alteração, pede investigação de outras causas antes de qualquer nova indicação.
Onde operamos
Atendemos por credenciamento médico nestes sete hospitais:
- Hospital Samaritano Paulista
- Hospital Samaritano Higienópolis
- Hospital Blanc
- Hospital Leforte Liberdade
- Hospital São Luiz Alphaville
- Hospital São Luiz Morumbi
- Hospital Alvorada
Atendemos nestes hospitais por credenciamento médico. A cobertura do seu atendimento depende do seu contrato com a operadora, e deve ser confirmada diretamente com ela.
Como funciona com plano de saúde
O tratamento cirúrgico da endometriose consta no rol de procedimentos da ANS e, havendo indicação médica, costuma ter cobertura. A autorização depende de cada contrato, e cirurgias com equipe multidisciplinar exigem justificativa detalhada.
Nossa equipe emite o relatório com justificativa clínica e o código do procedimento, e acompanha o pedido até a resposta.
Dúvidas frequentes
Ainda é preciso operar para descobrir endometriose?
Não como regra. A diretriz europeia retirou a laparoscopia do papel de padrão-ouro diagnóstico em 2022, a britânica seguiu em novembro de 2024 e a americana publicou diretriz própria de diagnóstico em 2026. O diagnóstico clínico com imagem permite iniciar o tratamento.
Tomar remédio resolve ou tenho que operar?
Para a dor, o tratamento hormonal é a primeira linha nas diretrizes e resolve para boa parte das mulheres. Ele não trata obstrução de ureter, nódulo que sangra no intestino e aderência instalada.
Anticoncepcional contínuo trata ou só esconde?
Trata o estímulo que alimenta a lesão e controla a dor, e não remove o que já está infiltrado e fibrosado. Suspender o hormônio costuma trazer o sintoma de volta, o que mostra o efeito e também o limite dele.
Endometriose tem que tirar o útero?
Não como regra. A histerectomia entra em casos selecionados, em geral com adenomiose associada, sangramento intenso e prole definida. Retirar o útero não trata os focos fora dele.
Ressonância normal exclui endometriose?
Não. A ressonância mapeia bem doença profunda e endometrioma, e não identifica lesão superficial de forma confiável. Exame normal com sintoma persistente pede reavaliação, não alta.
Por que demorou tanto para descobrirem a minha?
A revisão de 2025 encontrou tempos até o diagnóstico entre 0,3 e 12 anos e apontou que o atraso é conduzido principalmente pelos profissionais de saúde. Cólica tratada como normal e ultrassom sem preparo respondem por boa parte desses anos.
Voltou a doer. A endometriose voltou?
Não necessariamente. Dor depois da cirurgia pode vir de aderência, de fibrose antiga ou de dor pélvica crônica já estabelecida, com exame de imagem normal. Investigar antes de operar de novo evita cirurgia que não resolve.
Vou precisar tirar um pedaço do intestino?
Nem sempre. A raspagem da parede e a ressecção em disco preservam o órgão. No ensaio randomizado que comparou as técnicas, 7,4% do braço conservador acabaram precisando de ressecção de segmento.
Existe exame de sangue para endometriose?
Nenhum marcador de sangue ou saliva tem validação para uso clínico fora de pesquisa. O protocolo brasileiro diz, com todas as letras, que o uso do CA-125 deve ser abandonado.
· por Dr. Lucas G. S. Baptista
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. A indicação de qualquer procedimento depende de avaliação individual.