O que é um cisto de ovário
O ovário trabalha por ciclos. Todo mês ele monta um folículo, uma bolsa com líquido que carrega o óvulo, e esse folículo se rompe na ovulação. Quando ele não rompe, ou quando a estrutura que sobra depois da ovulação retém líquido, forma-se um cisto funcional. Ele nasce do funcionamento normal e some sozinho na maioria das vezes.
Sabemos que a palavra "cisto" no laudo assusta, e sabemos que o medo que chega ao consultório quase nunca é o de operar. É o de acordar sem o ovário, com a fertilidade decidida por outra pessoa enquanto você dormia.
Em 90 segundos: as palavras do laudo traduzidas, e por que a categoria de risco importa mais que o tamanho.
Os tipos, e o que muda em cada um
| Tipo | O que é | Some sozinho? |
|---|---|---|
| Funcional | Nasce do folículo que não rompeu ou da estrutura pós-ovulação | Sim, em geral em 1 ou 2 ciclos |
| Endometrioma | O cisto da endometriose: se alimenta do sangramento repetido | Não |
| Teratoma maduro (dermoide) | Contém tecidos que se formaram ali e não se dissolvem | Não |
| Cistadenoma | Tumor benigno que produz o próprio líquido | Não |
Os três últimos não regridem com anticoncepcional nem com o tempo, e mesmo assim nenhum deles é, pelo simples fato de existir, uma indicação de cirurgia. O que decide não é o rótulo do cisto nem o tamanho isolado: é a morfologia dele na ultrassonografia, somada aos sintomas e à fase de vida em que você está.
Quando some sozinho
Muitos cistos desaparecem sem tratamento. No maior estudo prospectivo sobre o tema, 1.919 mulheres com massa nova classificada como benigna ao ultrassom foram acompanhadas sem cirurgia. Em dois anos, 20,2% das massas sumiram sozinhas. No mesmo período, a torção apareceu em 0,4% dos casos e a ruptura em 0,2%.
| Quadro | Conduta habitual | Horizonte |
|---|---|---|
| Cisto simples até 3 cm em quem menstrua | Achado esperado, sem controle específico | Nenhum |
| Cisto simples maior, paredes finas, sem parte sólida | Repetir ultrassom em 6 a 12 semanas | Alta se sumir ou reduzir |
| Aspecto típico de dermoide ou endometrioma, sem sintoma | Controle por imagem em intervalos definidos | Anos, enquanto estável |
| Lesão com parte sólida ou vascularização suspeita | Sai do acompanhamento | Sem espera |
| Dor que não passa, atribuída ao cisto | A cirurgia entra pelo sintoma | Sem espera |
Acompanhar é uma conduta ativa, com data marcada. E observar não é abandonar.
Quem escolhe acompanhar sai da consulta com a data do próximo exame e com a lista de sinais que antecipam o retornoO acompanhamento é feito com ultrassonografia transvaginal, de preferência entre o quinto e o décimo dia do ciclo, quando o ovário está mais silencioso. O mesmo serviço e, quando possível, o mesmo examinador ajudam, porque o que interessa é a comparação entre exames, não o valor isolado de um deles. Guarde as imagens, e não apenas o laudo.
Acompanhar não impõe repouso, dieta nem afastamento. Você mantém exercício, trabalho e vida sexual. Mas procure pronto-socorro no mesmo momento se houver dor pélvica súbita e forte de um lado, com náusea ou vômito. Pode ser torção.
Entendendo o laudo do ultrassom
O laudo chega antes da consulta, quase sempre pelo celular, e a leitura solitária de palavras como "projeção papilar" e "componente sólido" produz uma noite ruim. O vocabulário abaixo é o do seu laudo.
Duas coisas importam mais que todas as outras nesse papel. A primeira é a morfologia: como a lesão é feita por dentro. A segunda é a categoria de risco, um número de 0 a 5 que já carrega uma conduta proposta. Tamanho, sozinho, não classifica nada.
| O que está escrito | O que significa |
|---|---|
| Anecoico | Preto na imagem: líquido puro, sem nada dentro. Sinal tranquilizador |
| Unilocular | Uma única câmara, sem divisórias internas |
| Multilocular | Várias câmaras separadas por septos, como bolhas grudadas |
| Septo | Divisória interna. Importa se é fina e lisa ou espessa e irregular |
| Componente sólido | Tecido, não líquido. É o achado que mais pesa na classificação |
| Projeção papilar | Saliência de tecido que cresce para dentro da lesão. Quatro ou mais é critério de suspeita |
| Sombra acústica | Costuma indicar gordura ou cálcio, comum no dermoide. É critério de benignidade |
| Conteúdo espesso, vidro fosco | Padrão frequente do endometrioma |
| Color score | Quanta circulação a lesão tem, de 1 (ausente) a 4 (intensa) |
| Líquido livre em fundo de saco | Pequena quantidade é fisiológica |
A escala de risco, de 0 a 5
| Categoria | Leitura | Conduta habitual |
|---|---|---|
| 1 | Ovário normal, com folículo ou corpo lúteo | Nada a fazer |
| 2 | Quase certamente benigno | Acompanhamento por imagem ou alta |
| 3 | Risco baixo | Seguimento por ultrassom |
| 4 | Risco intermediário: 10% a menos de 50% | Ressonância, avaliação especializada ou cirurgia |
| 5 | Risco alto: 50% ou mais | Planejamento com ginecologista oncológico desde o início |
O laudo é o começo da conversa, não o fim. Um laudo antigo que descreve a mesma lesão, do mesmo tamanho, três anos atrás, vale mais do que qualquer marcador de sangue. Estabilidade é informação.
É por isso que pedimos as imagens, e não apenas os laudosO medo do câncer
Sabemos que essa é a pergunta que você digitou de madrugada,
Sim, um cisto de ovário pode ser câncer. É incomum, e o quanto é incomum depende quase inteiramente de como a lesão aparece na ultrassonografia. Quando a imagem é de aspecto benigno, o risco fica na casa de menos de 1%. Quando a imagem tem achados de suspeita, o risco sobe de forma acentuada, e ainda assim a maioria dessas lesões acaba sendo benigna quando examinada ao microscópio.
Uma informação que muda o enquadramento: o câncer de ovário não nasce de um cisto comum que "virou" maligno com o tempo. A maior parte dos carcinomas de alto grau se origina na trompa, na porção próxima ao ovário, e chega ao ovário depois.
Categoria alta não é diagnóstico
- De 219 lesões classificadas como categoria 4 ou 5, 135 eram benignas e 84 malignas
- Quase metade das benignas eram cistadenomas, tumores benignos que simplesmente têm componente sólido
- A maioria das mulheres que recebe um desses números não tem câncer
Categoria baixa não é garantia
- Na categoria 2, o risco é de menos de 1%
- No mesmo estudo, 1 lesão maligna em 157 foi encontrada nessa categoria
- Um por cento não é zero, e é por isso que acompanhar tem data, e não é o mesmo que esquecer
O que reduz a incerteza, e o que não reduz
Reduz: repetir o ultrassom com intervalo definido, porque o comportamento ao longo do tempo informa mais do que uma foto isolada. Complementar com ressonância quando a lesão fica indeterminada. E, quando há indicação cirúrgica, planejar a cirurgia com a equipe certa desde o começo. A primeira operação é a que define o caminho quando o diagnóstico se confirma.
Não reduz: o CA-125 pedido isoladamente. Ele sobe em endometriose, mioma, infecção pélvica, gravidez e na própria menstruação. Um valor alterado isolado, em mulher que menstrua, gera mais ansiedade e mais cirurgia do que diagnóstico.
E há um ponto que contraria o marketing de check-up: rastrear câncer de ovário na população geral não salva vidas. Um ensaio randomizado que acompanhou 202.562 mulheres por uma mediana de 16,3 anos aumentou a detecção em estágio inicial e, mesmo assim, não reduziu significativamente a mortalidade. Isso não vale para quem tem história familiar relevante ou mutação conhecida, situação que segue outra via de acompanhamento.
Quando precisa operar
A maioria dos cistos de ovário não precisa de cirurgia. Quando a cirurgia é indicada, o objetivo técnico é retirar o cisto e deixar o ovário.
| Situação na imagem e na clínica | Conduta habitual |
|---|---|
| Cisto simples, paredes finas, sem parte sólida, na idade reprodutiva | Observação com ultrassom |
| Aparência clássica de dermoide ou endometrioma, sem sintoma, estável | Observação, com intervalos definidos |
| Cisto que cresce em controles sucessivos, ou muda de aspecto | Reavaliação e, conforme o caso, cirurgia |
| Dor pélvica persistente atribuída ao cisto | A cirurgia entra em discussão pelo sintoma |
| Lesão com componente sólido ou vascularização suspeita | Cirurgia, com estadiamento por imagem antes |
| Torção: dor súbita, forte, com náusea e vômito | Urgência cirúrgica |
O que saiu da lista de indicações foi o tamanho como critério solitário. "Cisto de 5 cm" não é, por si, indicação de cirurgia.
Um cisto simples de 5 cm em mulher que menstrua tem outra conduta que uma lesão de 5 cm com parte sólida depois da menopausaFertilidade e reserva ovariana
Reserva ovariana é a quantidade de folículos que ainda existe nos seus ovários. Essa reserva não se repõe.
Um cisto de ovário não é uma bola solta dentro de um órgão oco. A parede dele está colada ao tecido ovariano, e o tecido que faz fronteira com essa parede é exatamente onde ficam os folículos pequenos. Quando retiramos a cápsula do cisto, sai com ela uma faixa de tecido saudável.
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1
A primeira forma de proteger a reserva é não operar
Nem todo cisto precisa sair. Para quem tem endometrioma pequeno, sem dor e com reserva já baixa, a conduta expectante protege mais do que qualquer técnica.
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2
Medir antes, não depois
Quando há desejo de gravidez, medimos a reserva antes, discutimos a possibilidade de congelar óvulos antes da cirurgia, e só então decidimos a técnica. Reserva medida depois da cirurgia já não tem com o que ser comparada.
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3
A técnica de hemostasia importa
O leito de onde o cisto saiu sangra, e é preciso fechá-lo. A cauterização elétrica propaga calor pelo tecido vizinho; os pontos de sutura e os selantes poupam o tecido em volta. Metanálise brasileira de 12 ensaios recomenda a sutura.
Duas ressalvas: a certeza da evidência varia entre as comparações, e quase todos esses estudos mediram hormônio, não gravidez. A técnica que preserva mais reserva ainda não foi demonstrada como a que gera mais nascimentos. Por isso a escolha continua sendo individualizada, e não uma regra fixa.
Como é a cirurgia
A via de escolha é a videolaparoscopia: três a quatro incisões de poucos milímetros, câmera, anestesia geral. Abrimos a cápsula do ovário, encontramos o plano entre a parede do cisto e o tecido ovariano saudável, e retiramos apenas o cisto. Dentro de um saco próprio, para evitar que o conteúdo se espalhe na cavidade. O ovário é então reconstruído.
Cistectomia e ooforectomia não são a mesma coisa
A retirada do ovário inteiro é uma decisão específica, e não o desfecho natural de uma cirurgia de cisto. Ela entra em cena quando não existe tecido ovariano viável a preservar, quando há suspeita de malignidade que contraindica abrir a lesão, ou quando a própria paciente, já fora da idade reprodutiva e depois de conversar, opta por isso. Nenhuma dessas hipóteses se decide sozinha dentro da sala.
Pergunte, por escrito no termo de consentimento, o que está autorizado e o que não está. A conversa antes da anestesia é o que garante que a decisão continue sua.
Levem isso para qualquer consulta, com a nossa equipe ou com outraNa torção do ovário a orientação também mudou: a conduta atual é desfazer a torção e preservar o ovário, mesmo quando ele parece escuro e sem circulação no momento da cirurgia, porque a recuperação funcional depois é frequente. Retirar por causa do aspecto é uma conduta que a literatura recente não apoia.
Riscos que precisam estar ditos antes: sangramento, infecção, lesão de órgão vizinho, aderências, necessidade de conversão para cirurgia aberta e recidiva do cisto.
Recuperação
| Marco | O que esperar após cistectomia por videolaparoscopia |
|---|---|
| Internação | Em geral do mesmo dia ou de uma noite |
| Dor | Maior nas primeiras 48 horas, inclusive no ombro, pelo gás usado na cirurgia |
| Caminhar | No mesmo dia, e é o que reduz risco de trombose |
| Trabalho sem esforço físico | Costuma ser retomado em 1 a 2 semanas |
| Peso, academia e impacto | Liberados de forma progressiva, conforme avaliação |
| Menstruação | Pode vir fora do padrão nos primeiros ciclos |
| Resultado do anatomopatológico | Discutido em consulta, é ele que fecha o diagnóstico |
Quando há preocupação com fertilidade, a remedida do hormônio antimülleriano costuma ser pedida a partir de 3 meses: parte da queda logo após a cirurgia é transitória, e há recuperação parcial nos meses seguintes.
Onde operamos
Atendemos por credenciamento médico nestes sete hospitais:
- Hospital Samaritano Paulista
- Hospital Samaritano Higienópolis
- Hospital Blanc
- Hospital Leforte Liberdade
- Hospital São Luiz Alphaville
- Hospital São Luiz Morumbi
- Hospital Alvorada
Atendemos nestes hospitais por credenciamento médico. A cobertura do seu atendimento depende do seu contrato com a operadora, e deve ser confirmada diretamente com ela.
Como funciona com plano de saúde
A cistectomia ovariana por videolaparoscopia consta no rol de procedimentos da ANS e, havendo indicação médica, costuma ter cobertura. A autorização depende de cada contrato.
Nossa equipe emite relatório com justificativa clínica e código do procedimento, e acompanha o pedido até a resposta.
Dúvidas frequentes
Cisto no ovário de 5 cm é grande?
Tamanho sozinho não classifica. Um cisto simples de 5 cm em mulher que menstrua costuma ser acompanhado. A mesma medida com parte sólida, ou depois da menopausa, pede outra conduta.
A cirurgia de cisto tira o ovário inteiro?
O padrão é retirar o cisto e preservar o ovário. A retirada do ovário é uma decisão à parte, conversada antes e registrada no termo de consentimento.
Em quanto tempo um cisto funcional some?
Em geral em um ou dois ciclos, e por isso o controle costuma ser marcado depois de 6 a 12 semanas, e não na semana seguinte.
Anticoncepcional faz o cisto sumir?
A pílula não dissolve um cisto já formado. Ela pode reduzir a formação de novos cistos funcionais ao suprimir a ovulação, e essa é uma indicação diferente.
Meu laudo veio categoria 4. Já posso considerar que é câncer?
Não. Nessa faixa o risco é de 10% a menos de 50%, e em série recente a maioria das lesões classificadas como 4 ou 5 era benigna ao exame final.
CA-125 alterado significa câncer?
Não. Ele se eleva em várias condições benignas. Isolado, em mulher que menstrua, tem pouco valor diagnóstico.
Existe exame para detectar câncer de ovário cedo?
Para a população geral, não existe rastreamento que reduza mortalidade. Para mulheres com história familiar ou mutação conhecida, a conduta é outra e se define em consulta.
Preciso operar para engravidar?
Nem sempre. Em endometrioma pequeno e sem dor, operar pode custar reserva ovariana sem ganho reprodutivo.
Se o cisto não some, é porque é câncer?
Não. A maioria dos cistos que persistem é benigna. Estabilidade prolongada em lesão de aspecto benigno costuma permitir espaçar os controles.
· por Dra. Vanessa M. Sargaço
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. A indicação de qualquer procedimento depende de avaliação individual.